Sistematizamos as principais questões abordadas no dia 18/08/2026, no Encontro com as Especialistas Luciana Phebo, médica pediatra e sanitarista, Chefe da área de Saúde e Nutrição do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no Brasil e Viviane Castello Branco, médica pediatra com habilitação em Adolescência pela SBP, consultora do Departamento de Adolescência da SOPERJ e membro do GT Homens pela Primeira Infância da Rede Nacional Primeira Infância.
![]() | Veja também: Guia AA-HA! e Indicadores GAMA: recomendações da Ação Global para a Saúde de Adolescentes |
A saúde e o bem-estar dos adolescentes demanda uma abordagem ampla, intersetorial e orientada por evidências, capaz de articular políticas públicas, programas, serviços e estratégias de monitoramento. Nesse contexto, iniciativas globais como o AA-HA! – Global Accelerated Action for the Health of Adolescents e o GAMA – Global Action for Measurement of Adolescent Health oferecem referenciais para orientar ações voltadas às adolescências. No Brasil, essas perspectivas dialogam com fontes nacionais de informação, como a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), e com iniciativas direcionadas à qualificação da Atenção Primária à Saúde (APS), como a iniciativa Unidade Amiga das Adolescências (UAA).
AA-HA!: uma perspectiva ampliada sobre saúde e bem-estar dos adolescentes
O AA-HA! é um guia construído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em conjunto com outras agências das Nações Unidas, como UNAIDS, UNESCO, UNFPA, ONU Mulheres e UNICEF. Publicado inicialmente em 2017, teve sua segunda edição lançada em 2023, incorporando aprendizados decorrentes da pandemia. O documento aborda desde as razões para investir na adolescência até a implementação de programas, o monitoramento e a avaliação dos serviços.
O guia organiza a saúde e o bem-estar dos adolescentes a partir de cinco domínios interligados, contemplando aspectos relacionados à saúde e nutrição; conexões, valores e contribuição social; segurança e ambientes e relações seguras; aprendizagem e transição da escola para o trabalho; e autonomia e resiliência.

Essa perspectiva reforça que a saúde dos adolescentes ultrapassa os limites dos serviços de saúde. O pleno desenvolvimento e a garantia de direitos dependem de ambientes de confiança, acesso a recursos e atenção diferenciada, envolvendo não apenas profissionais de saúde, mas diferentes setores e políticas públicas. A adolescência, portanto, requer uma atuação fortemente intersetorial.
GAMA: medir para orientar ações
O GAMA é uma iniciativa da OMS, desenvolvida com outras agências das Nações Unidas, que busca padronizar internacionalmente a medição e o monitoramento da saúde e do bem-estar dos adolescentes. Seus 47 indicadores abrangem:
No Brasil, UNICEF, OPAS, Ministério da Saúde, Fiocruz e outros ministérios, com a participação de especialistas e adolescentes, analisaram os indicadores para verificar a disponibilidade de dados, sua adequação ao contexto brasileiro e possíveis lacunas e oportunidades de aprimoramento.
A análise mostrou que o país produz uma quantidade expressiva de dados e contempla praticamente todos os indicadores GAMA. A PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde Escolar) foi a principal fonte, complementada pela PNAD Contínua e pelos sistemas do SUS. Entretanto, apesar de robustos, esses sistemas são fragmentados, adotam diferentes definições e faixas etárias para a adolescência e não estão integrados, dificultando uma visualização unificada e acessível da saúde e do bem-estar dos adolescentes e a utilização cotidiana das informações pelos gestores.
Outra limitação é a desagregação por raça/cor e etnia, uma vez que os sistemas não cruzam sistematicamente essas informações com idade e sexo, dificultando a identificação de desigualdades. Uma das oportunidades apontadas é, portanto, a criação de uma plataforma unificada de dados sobre as adolescências.
Quanto à compatibilidade dos indicadores GAMA com os sistemas de informação brasileiros:
O que a PeNSE revela sobre os adolescentes brasileiros?
Entre as fontes utilizadas para os indicadores GAMA, destaca-se a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE em escolas públicas e privadas brasileiras. A pesquisa encontra-se em sua quinta edição, com participação de mais de 2 milhões de adolescentes e possibilita acompanhar uma importante série histórica sobre a saúde dos adolescentes.
Na comparação entre 2019 e 2024, foram observados avanços, como a redução no número de adolescentes que relatam experimentação de álcool, uso de drogas ilícitas, experimentação de cigarro e consumo abusivo de álcool, especialmente entre os meninos.
Ao mesmo tempo, alguns resultados constituem sinais de alerta. Houve aumento dos relatos de bullying e crescimento expressivo do uso de cigarros eletrônicos. Quase 30% dos adolescentes relataram sentir tristeza com frequência, enquanto 18% consideraram que a vida não vale a pena.
Os dados relacionados à violência também merecem atenção: 18% relataram ter sofrido assédio sexual, quase 9% foram forçados a ter relação sexual contra a vontade, 27% sofreram bullying e 13% cyberbullying.
A violência sexual também aparece em outras análises apresentadas. A gravidez de meninas de 10 a 14 anos é, legalmente, estupro de vulnerável e o Brasil registrou 12 mil nascimentos nessa faixa etária em 2024. Só na Amazônia Legal, foram 38.000 casos de estupro contra crianças e adolescentes entre 2021 e 2023, com crescimento acima da média e maior incidência em áreas rurais e de fronteira.
Lacunas de informação: autonomia e raça e etnia
Apesar da robustez das bases brasileiras, algumas dimensões do bem-estar dos adolescentes permanecem pouco visíveis. Uma delas é a autonomia, dimensão central do AA-HA!. Atualmente, não há um indicador nacional consolidado sobre autonomia e capacidade de decisão dos adolescentes.
O letramento em saúde foi apresentado como elemento importante para o desenvolvimento dessa autonomia. O acesso à informação permite que adolescentes compreendam suas necessidades de saúde, reconheçam possibilidades de cuidado, conheçam os serviços disponíveis e ampliem sua capacidade de tomar decisões.
Outra lacuna refere-se à análise sistemática de raça/cor e etnia. Embora essas informações apareçam em alguns recortes, como na investigação dos motivos relacionados ao bullying, mas ainda não são cruzadas sistematicamente com os demais indicadores de saúde. Essa limitação repercute na capacidade de orientar políticas públicas, qualificar os serviços e subsidiar a formação dos profissionais, principalmente pensando no racismo institucional.
Unidade Amiga das Adolescências: traduzindo os referenciais para a APS
Na Unidade Amiga das Adolescências (UAA), é uma estratégia de apoio técnico e certificação e advocacy que visa contribuir com a qualificação das Unidades de Atenção Primária à Saúde do SUS para que ofereçam atenção integral e integrada à saúde dos adolescentes. Além disso, é um modelo baseado em evidências, certificável e escalável. Um dos eixos é o monitoramento, buscando traduzir os referenciais do GAMA e do AA-HA! para o cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS). A iniciativa, desenvolvida pelo Unicef em conjunto com o Ministério da Saúde, definiu indicadores organizados em quatro conjuntos: acesso e cuidado clínico; saúde sexual e reprodutiva e gestação; educação e saúde nas UBS/PSE; e vacinação e equidade racial.
No acesso e cuidado clínico, os indicadores buscam identificar a presença dos adolescentes na UBS e contemplam contatos assistenciais, atendimento individual registrado por médicos e enfermeiros, atendimento odontológico e avaliação antropométrica com registro no sistema de vigilância nutricional. A proposta é favorecer um atendimento qualificado e o reconhecimento da UBS como um território também destinado às adolescências.
Na saúde sexual e reprodutiva e gestação, são considerados indicadores de atendimento em saúde sexual e reprodutiva para meninas e pessoas trans de 14 a 19 anos, captação precoce para o pré-natal e realização de exames de sífilis e HIV, estes últimos também relacionados à qualidade da atenção pré-natal.
No campo da educação e saúde, são contempladas atividades coletivas realizadas na UBS e em parceria com o Programa Saúde na Escola (PSE), abordando saúde sexual e reprodutiva, saúde mental, prevenção das violências e cultura de paz. Na vacinação, o foco é a vacina contra o HPV, considerando a faixa etária prioritária de 9 a 14 anos e o corte de 15 anos completos para verificar a vacinação no período anterior.
A proposta inclui ainda um índice de paridade racial no atendimento, que compara a presença de adolescentes negros e brancos no território com aqueles atendidos na UBS, buscando identificar possíveis diferenças na utilização dos serviços.
Estratégias para favorecer a implantação, escala e sustentabilidade:
Desafios e potencialidades da Atenção Primária como território das adolescências
Entre as barreiras identificadas para o cuidado aos adolescentes estão sua baixa visibilidade nas prioridades dos serviços, a insegurança dos profissionais diante de temas sensíveis, como família, sexualidade e violência, estruturas pouco atrativas, fragmentação das ações intersetoriais, baixa participação dos adolescentes e das famílias e insuficiência de indicadores específicos para monitorar a qualidade da atenção.
Uma visão distorcida, estigmatizante ou preconceituosa sobre a adolescência também pode influenciar negativamente as práticas de cuidado. Nesse sentido, os serviços não devem depender apenas da procura espontânea: é necessário aproximar-se dos adolescentes e estar presente nos espaços onde eles se encontram e se sentem à vontade.
A APS apresenta importantes potencialidades para essa aproximação. A longitudinalidade e a integralidade do cuidado, o vínculo com as famílias e o conhecimento do território, da comunidade e dos modos de vida dos adolescentes favorecem uma atenção qualificada. A unidade de saúde deve ser reconhecida também como território das adolescências.
Os próprios adolescentes constituem um importante recurso para a promoção da saúde. Podem atuar como educadores de pares, mobilizadores do território e participantes dos espaços de decisão, contribuindo para o planejamento, desenvolvimento e avaliação das ações.
Experiências apresentadas demonstram diferentes possibilidades de participação juvenil, incluindo ações educativas, atividades comunitárias, distribuição de preservativos, discussão sobre masculinidades, dignidade menstrual, saúde mental, racismo e violência de gênero, além do uso de jogos e tecnologias educativas. Também foram destacadas experiências que incorporam as especificidades culturais e os saberes tradicionais dos territórios.
Mudanças estratégicas para qualificar o cuidado
A teoria da mudança que orienta a UAA foi estruturada em cinco mudanças estratégicas: qualificação dos profissionais, fluxos e protocolos dos serviços de APS; protagonismo e engajamento dos adolescentes no planejamento, desenvolvimento e avaliação das ações; engajamento de pais, familiares e pessoas que apoiam os adolescentes; articulação intersetorial; e gestão de resultados.
A expectativa de longo prazo é contribuir para que os adolescentes sejam mais autônomos e saudáveis, tenham maior letramento em saúde, recebam cuidado de qualidade, vivam em ambientes mais favoráveis e saibam acessar atividades capazes de contribuir para sua qualidade de vida.
A estratégia formulou os 10 passos para a adesão à estratégia Unidades Amigas das Adolescências – UAA:
Portanto, prevê a mobilização e adesão das secretarias, seguida da construção de uma linha de base a partir dos indicadores. Com base nesse diagnóstico, são definidas estratégias e planos de ação de forma compartilhada com profissionais, parceiros e adolescentes. Na sequência, são realizadas ações de capacitação e educação continuada e implementadas as mudanças necessárias nos serviços. O processo inclui ainda avaliação intermediária, avaliação final, certificação e análise das lições aprendidas para subsidiar a reorganização dos serviços.
Assim, a articulação entre referenciais globais, sistemas nacionais de informação e ações concretas nos territórios reforça a necessidade de tornar as adolescências mais visíveis nas políticas e nos serviços de saúde. A qualificação da APS passa pelo reconhecimento dos adolescentes como sujeitos de direitos e participantes ativos do cuidado, pelo fortalecimento da atuação intersetorial e pelo uso sistemático de indicadores para orientar, monitorar e aprimorar as ações.
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FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Postagens: Principais Questões sobre Ação Global para Saúde de Adolescentes. Rio de Janeiro, 12 out. 2026. Disponível em:<https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-adolescente/principais-questoes-sobre-guia-aa-ha>.