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Principais Questões sobre Uso de Telas e Redes Sociais na Adolescência

15 jul 2026

Sistematizamos as principais questões abordadas no dia 23/03/2026, no Encontro com os Especialistas Suely Deslandes, socióloga, doutora em Ciências e pesquisadora titular do IFF/FIOCRUZ, e Tiago Coutinho, antropólogo e pesquisador do LEAS-IOC-FIOCRUZ.

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O Panorama Atual do Uso de Telas e Redes Sociais

O uso de telas e a navegação em redes sociais configuram-se como um tema central do cotidiano contemporâneo, atravessando diretamente as relações familiares, a comunicação e o desenvolvimento das novas gerações. Na atualidade, o acesso digital expandiu seu status de mera utilidade técnica para ser amplamente reconhecido como um direito humano fundamental, dado que constitui a via primordial de acesso à informação, à construção de oportunidades e ao exercício da sociabilidade. No cenário brasileiro, esse consumo é massivo e estrutural: inquéritos nacionais apontam de forma consensual que o percentual de uso da internet e de dispositivos digitais por crianças e adolescentes atinge a marca dos 90% na faixa etária de até 17 anos. Esse panorama sofreu uma intensificação drástica a partir da pandemia de COVID-19.

Como medida sanitária de isolamento social para conter o vírus, a sociabilidade presencial foi interrompida, provocando um aumento abrupto do tempo online e uma digitalização profunda do tempo do cotidiano. Esse processo estabeleceu as redes digitais como o principal — e, por vezes, único — espaço de interação social disponível. Com isso, houve uma produção e um consumo massivos de conteúdos na rede sem qualquer tipo de moderação ou mediação, tornando visível e irreversível um padrão de comportamento que veio para ficar. Para as gerações atuais, classificadas como “nativos digitais” por não terem vivenciado o mundo analógico, o ambiente virtual é o território onde a vida se constrói, onde se estuda, faz-se provas, flerta-se, mantém-se contato com a família e se estabelecem os laços de reconhecimento, pertencimento e identidade.

 

Parâmetros Clínicos, Evidências Científicas e Práticas de Manejo

Diretrizes de Exposição por Faixa Etária (Uso Recreativo)
Quando se analisa a literatura científica, a síntese orientadora dos conselhos de pediatria aponta que, para crianças e adolescentes, quanto menos exposição a telas, melhor. Existe um consenso técnico que estabelece os seguintes parâmetros para o uso estritamente recreativo (excluindo-se o tempo dedicado a pesquisas escolares):

  • Até 2 anos de idade: nenhuma exposição a telas, celulares ou dispositivos correlatos.
  • De 2 a 5 anos de idade: no máximo 1 hora por dia.
  • A partir de 5 anos até a adolescência: no máximo 2 horas por dia.

Nota de prática clínica: É fundamental que o profissional de saúde reconheça que essas orientações ficaram severamente em suspenso no cenário pós-pandemia. Na prática, questiona-se se esses limites são de fato realistas e se todos os pais possuem condições psicossociais de regular o tempo preconizado pelas diretrizes tradicionais.

 

Práticas de Redução de Danos e Uso Seguro

Diante da complexidade em se monitorar estritamente o relógio, a literatura científica demonstra que o como se usa é tão relevante quanto o tempo de tela. Não sendo viável nem desejável a exclusão da internet, os profissionais de saúde devem orientar os pais a pactuarem regras consistentes e focadas na redução de danos à saúde física e mental:

  • Restrição aos espaços privados: evitar que os adolescentes utilizem os dispositivos dentro de seus quartos com a porta fechada. O isolamento impede que os pais saibam por quais caminhos e conteúdos o jovem está transitando no mundo digital. O uso deve ser concentrado na sala e em áreas comuns e compartilhadas da casa.
  • Preservação das refeições: interditar o uso de telas durante os momentos de alimentação a fim de resguardar a interação familiar, a sociabilidade direta e a comunicação entre as gerações.
  • Higiene do sono: evitar a exposição às telas no período que antecede o repouso. Há consenso científico robusto demonstrando que o uso noturno compulsivo prejudica gravemente a qualidade do sono, gerando quadros crônicos de fadiga e problemas de atenção diurna.

 

Riscos à Saúde Mental, Vulnerabilidades e Mecanismos Intermediários

As evidências científicas baseadas em pesquisas robustas demonstram que o uso compulsivo e prolongado de telas e redes sociais atua como um potente vetor de agravos à saúde mental. No entanto, é importante compreender que essas situações representam quadros limítrofes. Não é qualquer criança ou adolescente que desenvolverá transtornos pelo uso sistemático de tecnologias; os danos estão intimamente atrelados a um padrão de uso específico (quantidade de horas e tipo de conteúdo), associado a contextos e vulnerabilidades individuais que potencializam os riscos.

Principais Danos Evidenciados

  • Insatisfação Corporal e Transtornos Alimentares: ocorre de forma acentuada a partir da comparação sistemática com padrões estéticos corporais normativos e ideais de beleza inalcançáveis difundidos nas redes. Esse risco é fortemente mediado por marcadores de gênero, afetando de forma expressiva e majoritária as meninas, podendo evoluir para quadros severos de anorexia e bulimia;
  • Baixa Autoestima: intimamente associada às lógicas de funcionamento das plataformas virtuais, nas quais o adolescente passa a depender cronicamente da validação contínua de uma audiência externa, mensurada através de likes, curtidas e compartilhamentos para se sentir valorizado;
  • Problemas de sono e fadiga: uso noturno e tempo de tela associado a menor duração/qualidade do sono e pior funcionamento diurno.

Casos severos revelam um estado de ansiedade constante ligado ao medo de “ficar de fora” (Fear of Missing Out – FOMO), no qual o jovem sente que eventos cruciais estão acontecendo online e que, se ele não estiver conectado em tempo integral, será excluído de seu grupo social. Além disso, em cenários de alta vulnerabilidade, o uso nocivo e desregrado correlaciona-se com comportamentos de autolesão, ideação suicida e tentativas de suicídio.

Profissionais de saúde devem investigar os fatores que vulnerabilizam o paciente. Adolescentes que já apresentam um histórico de ansiedade, baixa autoestima ou que vivenciam situações de cyberbullying, quando expostos a determinados conteúdos sem suporte, têm seus danos psicossociais severamente potencializados. O uso noturno compulsivo atua como um mecanismo intermediário crítico, pois a perda de horas de sono desregula as atividades biológicas e emocionais do jovem, deixando-o ainda mais vulnerável aos desfechos clínicos mais graves.

 

O Fenômeno dos “Desafios Perigosos” (Online Challenges)

Como demonstração prática de como os riscos na adolescência ganharam novos contornos no ambiente virtual, pesquisas científicas coordenadas pela Fiocruz analisaram o fenômeno das “brincadeiras perigosas” ou desafios online. Por meio da análise minuciosa de mais de 100 vídeos com foco em práticas autolesivas, mapeou-se a existência de desafios de alto impacto e perigo físico, tais como o desafio do desmaio (interrupção deliberada da respiração), a inalação de canela em pó (causando severa irritação das vias aéreas), queimaduras na pele com gelo e sal, atear fogo no próprio corpo, aplicação direta de desodorante em spray para lesionar a epiderme, além de experiências como a mistura de Coca-Cola e Mentos.

A análise desses vídeos revela que tais práticas não são aleatórias, mas seguem padrões rígidos de uma estratégia de comunicação integrada à chamada “economia da visibilidade”, onde a internet transforma o cotidiano em um espetáculo. Se historicamente a adolescência sempre flertou com comportamentos de risco entre o grupo de amigos presenciais, hoje esse risco é filmado, editado, roteirizado e postado para o escrutínio público, algumas vezes contando, inclusive, com a participação dos próprios pais na gravação.

  • O Risco como Estratégia: o perigo não é um desvio acidental, mas o elemento central para atrair a atenção da audiência. Os vídeos utilizam títulos chamativos, encenações dramáticas e hashtags específicas para ampla difusão.
  • O Corpo como moeda de troca: o sofrimento físico é diretamente monetizado e convertido em engajamento. As pesquisas evidenciam que quanto mais perigoso e autolesivo é o desafio, mais notoriedade, comentários e seguidores o perfil recebe. Há registros clínicos de jovens que, mesmo após serem hospitalizados em pronto-socorros devido às lesões causadas pelos desafios, utilizam o espaço hospitalar para dar satisfações e desculpas à sua audiência por não terem conseguido concluir a prova.

 

Marco Legal: o ECA Digital

Uma das maiores novidades e avanços na proteção infantojuvenil no ambiente digital é o início da vigência do chamado ECA Digital, instituído em 18 de março de 2026. Esta legislação altera profundamente a correlação de forças e responsabilidades na segurança digital, superando o paradigma anterior que sobrecarregava as famílias de forma desproporcional. Antes da lei, a navegação segura dependia unicamente de os pais desenvolverem, por conta própria, um letramento digital avançado para monitorar acessos e interditar conteúdos nocivos (como pornografia, exploração sexual, violência, apologia ao uso de drogas, álcool, tabaco e desafios autolesivos), uma tarefa inviável para responsáveis que trabalham de 8 a 10 horas por dia.

O ECA Digital estabelece que a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes na internet é solidária e compartilhada entre as famílias, o Estado e, sobretudo, o ecossistema tecnológico (plataformas e empresas de tecnologia). O texto legal impõe diretrizes rígidas que devem transformar a arquitetura da internet:

  • Design Seguro e Verificação Etária: as empresas são obrigadas a conceber produtos, jogos e aplicações que tragam segurança no seu desenho. Torna-se mandatória a criação de mecanismos eficazes de verificação etária para bloquear o acesso de menores a conteúdos estritamente adultos.
  • Proibição de Perfilamento e Publicidade: passa a ser expressamente vedada a publicidade comercial direcionada a crianças e adolescentes, bem como a captura de informações e hábitos de navegação para a criação de perfis comportamentais (perfilamento) utilizados para sugerir produtos e links.
  • Fim do Engajamento Compulsivo: mecanismos desenhados para prender e fixar a atenção do usuário por tempo indeterminado, como a rolagem infinita, os loops de repetição de vídeos (reels/shorts) e sistemas de caixas de recompensa (loot boxes), passam a ser alvos de severa interdição legal.
  • Regulação de Contas e Consentimento: para realizar o download de qualquer aplicativo, crianças e adolescentes necessitam do consentimento expresso de seus pais ou responsáveis. Além disso, contas autônomas em mídias sociais (Instagram, TikTok, Facebook, etc.) só são permitidas para maiores de 16 anos; abaixo dessa idade, qualquer conta deve estar obrigatoriamente vinculada ao perfil dos pais.
  • Ferramentas de Controle Parental Facilitadas: as plataformas de tecnologia têm o dever de desenvolver e fornecer ferramentas de uso simples e intuitivo para que os responsáveis possam monitorar padrões de navegação, checar as horas de uso e interromper o acesso remotamente.

 

Desafios de Intervenção e Diretrizes para a Saúde Coletiva

O Perigo da Culpabilização e da Medicalização

Ao abordar o uso problemático de telas na prática clínica, o profissional de saúde deve exercer extrema cautela para não reduzir um fenômeno sociocultural complexo a um mero “transtorno ou vício individual”. Tratar a questão exclusivamente sob a ótica da falta de autocontrole do jovem gera um processo perigoso de culpabilização da vítima e alimenta o ciclo da medicalização inadequada de comportamentos cotidianos, abrindo espaço para a criação de diagnósticos simplistas e soluções farmacológicas para um problema que é coletivo.

O vício e o tempo prolongado de uso são induzidos pelo modelo de negócio das grandes corporações de tecnologia. O ecossistema digital é projetado por meio de uma fusão entre matemática, economia e administração com um objetivo claro: a captura sistemática da atenção humana através de notificações constantes e recompensas intermitentes de curtidas.

A Ineficácia da Restrição Pura vs. O Poder do Diálogo

Os dados empíricos das ciências sociais revelam que estratégias baseadas puramente na proibição radical e na restrição punitiva (“não vai usar”, “está proibido”) são ineficazes e geram uma armadilha intrafamiliar. Contestar, testar limites e burlar regras fazem parte das características intrínsecas da fase da adolescência. Quando os pais impõem um controle extremamente rigoroso e sem diálogo, o jovem tende a aumentar o nível de segredo, esconder seus hábitos e ampliar os conflitos familiares. O risco principal dessa abordagem é o silenciamento: caso o adolescente sofra alguma violência, abuso ou ameaça real na internet, ele não terá coragem de recorrer aos pais ou responsáveis por medo de ser punido por estar descumprindo a proibição do uso.

As intervenções eficazes baseiam-se na pactuação conjunta de regras consistentes (que não mudam de um dia para o outro) e na prática do co-uso. Os pais devem demonstrar interesse ativo pelos ambientes virtuais dos filhos, jogando juntos, navegando e conhecendo os sites e dinâmicas que eles frequentam. Ademais, é preciso problematizar o fato de que o hábito de tela dos pais serve como uma espelho e modelo para os filhos; pais que utilizam telas de forma compulsiva e perdem a capacidade de focar em tarefas cotidianas transmitem essa referência comportamental nociva às novas gerações.

Literacia Digital e Anamnese Clínica na Saúde Digital

A incorporação desse tema no escopo da Saúde Digital amplia a responsabilidade dos profissionais de saúde tanto na prevenção de agravos quanto na promoção da saúde mental. A resposta para o enfrentamento das violências e do uso compulsivo não reside na exclusão da tecnologia, mas na implementação da literacia digital (ou letramento digital).

Capacitar o jovem digitalmente não significa ensiná-lo a operar as ferramentas de informática, considerando que eles já possuem essa habilidade, mas sim ensiná-lo a desenvolver um olhar crítico sobre o funcionamento da internet. Significa fazê-lo compreender os desdobramentos de suas postagens, os mecanismos de publicidade e as diferentes formas de exposição da intimidade na rede, fomentando boas práticas de consumo.

Na rotina de atendimentos clínicos da atenção primária e especializada, o profissional deve incluir ativamente na anamnese questionamentos direcionados aos responsáveis e aos jovens:

  • Como é estabelecido o diálogo e a pactuação das regras e horários de uso de internet na sua casa?
  • Você tem conhecimento de quais sites, jogos e aplicativos seu filho utiliza, e se ele interage com estranhos nesses ambientes?
  • Há o hábito de compartilhar momentos online em família (co-uso) ou de monitorar se o uso de telas ocorre de madrugada, prejudicando o sono?

Com essas ferramentas de problematização e baseando-se no suporte legal do ECA Digital, a saúde coletiva pode atuar na vanguarda da proteção e do desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes na era hiperconectada.

Gravação na íntegra

 

Perguntas & Respostas

 

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Como citar

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Postagens: Principais Questões sobre Uso de Telas e Redes Sociais na Adolescência. Rio de Janeiro, 15 jul. 2026. Disponível em:<https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-adolescente/principais-questoes-sobre-telas-e-redes-sociais>.

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