Sistematizamos as principais questões abordadas no dia 23/03/2026, no Encontro com os Especialistas Suely Deslandes, socióloga, doutora em Ciências e pesquisadora titular do IFF/FIOCRUZ, e Tiago Coutinho, antropólogo e pesquisador do LEAS-IOC-FIOCRUZ.
![]() | Veja também: Uso de Redes Sociais e Telaspor Adolescentes Efeitos e Influências das Telas na Visão das Crianças |
O Panorama Atual do Uso de Telas e Redes Sociais
O uso de telas e a navegação em redes sociais configuram-se como um tema central do cotidiano contemporâneo, atravessando diretamente as relações familiares, a comunicação e o desenvolvimento das novas gerações. Na atualidade, o acesso digital expandiu seu status de mera utilidade técnica para ser amplamente reconhecido como um direito humano fundamental, dado que constitui a via primordial de acesso à informação, à construção de oportunidades e ao exercício da sociabilidade. No cenário brasileiro, esse consumo é massivo e estrutural: inquéritos nacionais apontam de forma consensual que o percentual de uso da internet e de dispositivos digitais por crianças e adolescentes atinge a marca dos 90% na faixa etária de até 17 anos. Esse panorama sofreu uma intensificação drástica a partir da pandemia de COVID-19.
Como medida sanitária de isolamento social para conter o vírus, a sociabilidade presencial foi interrompida, provocando um aumento abrupto do tempo online e uma digitalização profunda do tempo do cotidiano. Esse processo estabeleceu as redes digitais como o principal — e, por vezes, único — espaço de interação social disponível. Com isso, houve uma produção e um consumo massivos de conteúdos na rede sem qualquer tipo de moderação ou mediação, tornando visível e irreversível um padrão de comportamento que veio para ficar. Para as gerações atuais, classificadas como “nativos digitais” por não terem vivenciado o mundo analógico, o ambiente virtual é o território onde a vida se constrói, onde se estuda, faz-se provas, flerta-se, mantém-se contato com a família e se estabelecem os laços de reconhecimento, pertencimento e identidade.
Parâmetros Clínicos, Evidências Científicas e Práticas de Manejo
Diretrizes de Exposição por Faixa Etária (Uso Recreativo)
Quando se analisa a literatura científica, a síntese orientadora dos conselhos de pediatria aponta que, para crianças e adolescentes, quanto menos exposição a telas, melhor. Existe um consenso técnico que estabelece os seguintes parâmetros para o uso estritamente recreativo (excluindo-se o tempo dedicado a pesquisas escolares):
Nota de prática clínica: É fundamental que o profissional de saúde reconheça que essas orientações ficaram severamente em suspenso no cenário pós-pandemia. Na prática, questiona-se se esses limites são de fato realistas e se todos os pais possuem condições psicossociais de regular o tempo preconizado pelas diretrizes tradicionais.
Práticas de Redução de Danos e Uso Seguro
Diante da complexidade em se monitorar estritamente o relógio, a literatura científica demonstra que o como se usa é tão relevante quanto o tempo de tela. Não sendo viável nem desejável a exclusão da internet, os profissionais de saúde devem orientar os pais a pactuarem regras consistentes e focadas na redução de danos à saúde física e mental:
Riscos à Saúde Mental, Vulnerabilidades e Mecanismos Intermediários
As evidências científicas baseadas em pesquisas robustas demonstram que o uso compulsivo e prolongado de telas e redes sociais atua como um potente vetor de agravos à saúde mental. No entanto, é importante compreender que essas situações representam quadros limítrofes. Não é qualquer criança ou adolescente que desenvolverá transtornos pelo uso sistemático de tecnologias; os danos estão intimamente atrelados a um padrão de uso específico (quantidade de horas e tipo de conteúdo), associado a contextos e vulnerabilidades individuais que potencializam os riscos.
Principais Danos Evidenciados
Casos severos revelam um estado de ansiedade constante ligado ao medo de “ficar de fora” (Fear of Missing Out – FOMO), no qual o jovem sente que eventos cruciais estão acontecendo online e que, se ele não estiver conectado em tempo integral, será excluído de seu grupo social. Além disso, em cenários de alta vulnerabilidade, o uso nocivo e desregrado correlaciona-se com comportamentos de autolesão, ideação suicida e tentativas de suicídio.
Profissionais de saúde devem investigar os fatores que vulnerabilizam o paciente. Adolescentes que já apresentam um histórico de ansiedade, baixa autoestima ou que vivenciam situações de cyberbullying, quando expostos a determinados conteúdos sem suporte, têm seus danos psicossociais severamente potencializados. O uso noturno compulsivo atua como um mecanismo intermediário crítico, pois a perda de horas de sono desregula as atividades biológicas e emocionais do jovem, deixando-o ainda mais vulnerável aos desfechos clínicos mais graves.
O Fenômeno dos “Desafios Perigosos” (Online Challenges)
Como demonstração prática de como os riscos na adolescência ganharam novos contornos no ambiente virtual, pesquisas científicas coordenadas pela Fiocruz analisaram o fenômeno das “brincadeiras perigosas” ou desafios online. Por meio da análise minuciosa de mais de 100 vídeos com foco em práticas autolesivas, mapeou-se a existência de desafios de alto impacto e perigo físico, tais como o desafio do desmaio (interrupção deliberada da respiração), a inalação de canela em pó (causando severa irritação das vias aéreas), queimaduras na pele com gelo e sal, atear fogo no próprio corpo, aplicação direta de desodorante em spray para lesionar a epiderme, além de experiências como a mistura de Coca-Cola e Mentos.
A análise desses vídeos revela que tais práticas não são aleatórias, mas seguem padrões rígidos de uma estratégia de comunicação integrada à chamada “economia da visibilidade”, onde a internet transforma o cotidiano em um espetáculo. Se historicamente a adolescência sempre flertou com comportamentos de risco entre o grupo de amigos presenciais, hoje esse risco é filmado, editado, roteirizado e postado para o escrutínio público, algumas vezes contando, inclusive, com a participação dos próprios pais na gravação.
Marco Legal: o ECA Digital
Uma das maiores novidades e avanços na proteção infantojuvenil no ambiente digital é o início da vigência do chamado ECA Digital, instituído em 18 de março de 2026. Esta legislação altera profundamente a correlação de forças e responsabilidades na segurança digital, superando o paradigma anterior que sobrecarregava as famílias de forma desproporcional. Antes da lei, a navegação segura dependia unicamente de os pais desenvolverem, por conta própria, um letramento digital avançado para monitorar acessos e interditar conteúdos nocivos (como pornografia, exploração sexual, violência, apologia ao uso de drogas, álcool, tabaco e desafios autolesivos), uma tarefa inviável para responsáveis que trabalham de 8 a 10 horas por dia.
O ECA Digital estabelece que a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes na internet é solidária e compartilhada entre as famílias, o Estado e, sobretudo, o ecossistema tecnológico (plataformas e empresas de tecnologia). O texto legal impõe diretrizes rígidas que devem transformar a arquitetura da internet:
Desafios de Intervenção e Diretrizes para a Saúde Coletiva
O Perigo da Culpabilização e da Medicalização
Ao abordar o uso problemático de telas na prática clínica, o profissional de saúde deve exercer extrema cautela para não reduzir um fenômeno sociocultural complexo a um mero “transtorno ou vício individual”. Tratar a questão exclusivamente sob a ótica da falta de autocontrole do jovem gera um processo perigoso de culpabilização da vítima e alimenta o ciclo da medicalização inadequada de comportamentos cotidianos, abrindo espaço para a criação de diagnósticos simplistas e soluções farmacológicas para um problema que é coletivo.
O vício e o tempo prolongado de uso são induzidos pelo modelo de negócio das grandes corporações de tecnologia. O ecossistema digital é projetado por meio de uma fusão entre matemática, economia e administração com um objetivo claro: a captura sistemática da atenção humana através de notificações constantes e recompensas intermitentes de curtidas.
A Ineficácia da Restrição Pura vs. O Poder do Diálogo
Os dados empíricos das ciências sociais revelam que estratégias baseadas puramente na proibição radical e na restrição punitiva (“não vai usar”, “está proibido”) são ineficazes e geram uma armadilha intrafamiliar. Contestar, testar limites e burlar regras fazem parte das características intrínsecas da fase da adolescência. Quando os pais impõem um controle extremamente rigoroso e sem diálogo, o jovem tende a aumentar o nível de segredo, esconder seus hábitos e ampliar os conflitos familiares. O risco principal dessa abordagem é o silenciamento: caso o adolescente sofra alguma violência, abuso ou ameaça real na internet, ele não terá coragem de recorrer aos pais ou responsáveis por medo de ser punido por estar descumprindo a proibição do uso.
As intervenções eficazes baseiam-se na pactuação conjunta de regras consistentes (que não mudam de um dia para o outro) e na prática do co-uso. Os pais devem demonstrar interesse ativo pelos ambientes virtuais dos filhos, jogando juntos, navegando e conhecendo os sites e dinâmicas que eles frequentam. Ademais, é preciso problematizar o fato de que o hábito de tela dos pais serve como uma espelho e modelo para os filhos; pais que utilizam telas de forma compulsiva e perdem a capacidade de focar em tarefas cotidianas transmitem essa referência comportamental nociva às novas gerações.
Literacia Digital e Anamnese Clínica na Saúde Digital
A incorporação desse tema no escopo da Saúde Digital amplia a responsabilidade dos profissionais de saúde tanto na prevenção de agravos quanto na promoção da saúde mental. A resposta para o enfrentamento das violências e do uso compulsivo não reside na exclusão da tecnologia, mas na implementação da literacia digital (ou letramento digital).
Capacitar o jovem digitalmente não significa ensiná-lo a operar as ferramentas de informática, considerando que eles já possuem essa habilidade, mas sim ensiná-lo a desenvolver um olhar crítico sobre o funcionamento da internet. Significa fazê-lo compreender os desdobramentos de suas postagens, os mecanismos de publicidade e as diferentes formas de exposição da intimidade na rede, fomentando boas práticas de consumo.
Na rotina de atendimentos clínicos da atenção primária e especializada, o profissional deve incluir ativamente na anamnese questionamentos direcionados aos responsáveis e aos jovens:
Com essas ferramentas de problematização e baseando-se no suporte legal do ECA Digital, a saúde coletiva pode atuar na vanguarda da proteção e do desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes na era hiperconectada.
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FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Postagens: Principais Questões sobre Uso de Telas e Redes Sociais na Adolescência. Rio de Janeiro, 15 jul. 2026. Disponível em:<https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-adolescente/principais-questoes-sobre-telas-e-redes-sociais>.