Sistematizamos as principais questões abordadas no dia 04/03/2021 durante Encontro com o Especialista Humberto Hirakawa, médico obstetra, professor na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).
A rubéola e a toxoplasmose são infecções que requerem atenção especial durante a gestação, sendo a vacinação e as medidas preventivas as principais formas de evitar complicações graves.
![]() | Veja também Postagem em apresentação de slides: Toxoplasmose na Gestação e Rubéola na Gestação |
Rubéola e gestação
A rubéola é uma infecção viral cuja sintomatologia clínica, tanto em adultos quanto em crianças ou gestantes, geralmente se apresenta como uma doença exantemática leve ou até mesmo assintomática. Trata-se de uma doença autolimitada, conhecida como “sarampo de três dias”, por se assemelhar ao sarampo em seu início, mas que raramente resulta em complicações ou agravos. O grande problema da rubéola surge quando ela acomete gestantes, podendo resultar em abortamento, óbito fetal ou na Síndrome da Rubéola Congênita, que inclui uma série de defeitos congênitos.
A incidência de rubéola no mundo deve ser analisada em dois momentos distintos: antes e depois da introdução da vacina. A Síndrome da Rubéola Congênita era uma das infecções congênitas mais conhecidas, com incidência entre 0,8% e 0,4% a cada 1.000 nascidos vivos. Atualmente, graças à vacinação em massa, essa taxa diminuiu significativamente. Hoje, a incidência global é de aproximadamente 0,2% a cada 10.000 nascidos vivos. No Brasil, desde 2009, a incidência da síndrome é zero, tendo o país recebido, em 2015, o certificado de erradicação da rubéola, assim como toda a América.
Em casos de gestantes com quadro exantemático, deve-se solicitar o teste de IgG e IgM após cinco dias do início dos sintomas, período em que a sintomatologia provavelmente já desapareceu. Se o IgM for positivo, há uma suspeita de infecção aguda; se negativo, o IgG deve ser analisado. Um IgG positivo descarta a infecção aguda. Se ambos os testes forem negativos, é recomendável repetir o exame após três semanas para verificar a presença de IgG, já que há a possibilidade de um falso positivo para IgM.
O diagnóstico da rubéola fetal pode ser realizado pelo RT-PCR do líquido amniótico ou por meio de sinais ecográficos característicos, como cardiopatias, microcefalia e alterações cerebrais. Esses sinais, quando presentes em um quadro de infecção materna, podem confirmar o diagnóstico de rubéola fetal.
Infelizmente, não existe tratamento específico para a rubéola fetal. O acompanhamento deve ser feito em serviços especializados para monitorar a vitalidade fetal. Em casos de sinais de sepse, pode ser considerada a interrupção da gestação e, em algumas situações, pode ser necessário um suporte perinatal específico, como no caso de cardiopatias associadas ao diagnóstico.
Para gestantes assintomáticas, o diagnóstico depende da presença de quadro exantemático. Desde 2003, o Ministério da Saúde recomenda que não se solicitem exames de rotina para rubéola na gestação, especialmente o IgM. Essa recomendação foi reafirmada em 2013, após 12 meses sem casos de rubéola congênita no Brasil, e novamente em 2015, com a certificação da OPAS de que a América está livre da rubéola.
Não há necessidade de rastreamento durante a gestação, a menos que a paciente tenha feito contato ou viajado para uma área onde ainda exista rubéola e apresente quadro exantemático. No Manual de Atenção ao Pré-natal, recomenda-se a vacinação para identificar mulheres em risco e possibilitar a vacinação no período pós-natal, sem indicação de rastreamento durante a gestação.
Em resumo, o IgM não deve ser solicitado para pacientes assintomáticas. O IgG pode ser colhido para identificar susceptibilidade. O diagnóstico da infecção materna é realizado pela viragem sorológica ou pela cultura positiva para o vírus, embora esta última seja raramente feita. Quando a infecção aguda é documentada na mãe, o diagnóstico fetal é feito principalmente pelo PCR do líquido amniótico. A vacinação contra a rubéola é altamente eficaz, tendo eliminado a doença no Brasil desde 2008, com o último caso de Síndrome de Rubéola Congênita registrado em 2009. A vacinação durante a gestação é contra indicada, mas, caso ocorra inadvertidamente, não há relatos significativos de síndrome congênita associada à vacinação.
Toxoplasmose e gestação
A toxoplasmose, é uma protozoose causada pelo Toxoplasma gondii. A infecção geralmente apresenta sintomas leves, semelhantes aos da mononucleose, e é autolimitada. No entanto, quando acomete gestantes pela primeira vez, pode resultar em má-formação, óbito perinatal ou infecção com sequelas que podem se manifestar a médio ou longo prazo.
A incidência da toxoplasmose congênita varia globalmente, sendo mais alta na América Latina, com cerca de 10 casos por 10.000 nascidos vivos, comparado a 1 por 10.000 na América do Norte e Europa. Isso se deve provavelmente às cepas que circulam na região e à diversidade genética do parasita.
A melhor estratégia para prevenir a toxoplasmose congênita é identificar gestantes suscetíveis, realizando sorologia para IgG no início da gestação. Se identificada susceptibilidade, devem ser adotadas medidas de prevenção primária. A infecção pode ocorrer tanto pela ingestão de carne contaminada quanto por exposição ambiental, por isso é importante evitar o consumo de carne crua e adotar cuidados com a higiene dos alimentos e das mãos, bem como com o manuseio de terra e jardins.
Se a infecção não for evitada, o diagnóstico pode ser confirmado por soroconversão, detecção direta do DNA do Toxoplasma ou por amniocentese. O tratamento inicial com espiramicina é padrão, e em casos com infecção fetal confirmada ou suspeita, é indicado o esquema Tríplice.
Gestantes imunocomprometidas, como aquelas em tratamento para câncer ou portadoras de HIV, não seguem este protocolo devido ao risco de reativação da infecção. Nesses casos, o IgM pode não aparecer, e a avaliação baseia-se em títulos elevados de IgG.
A prevenção é sempre a melhor abordagem, sendo essencial esmerar-se no diagnóstico para evitar tratamentos desnecessários ou potencialmente prejudiciais. No caso de toxoplasmose, ao se deparar com um caso suspeito, deve-se buscar confirmar ou descartar a infecção. Se não for possível confirmar ou descartar, a estratificação entre caso suspeito e provável deve ser realizada, com ultrassonografia seriada para monitoramento.
Abaixo, a gravação do Encontro na íntegra.
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FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Postagens: Principais Questões sobre Toxoplasmose e Rubéola na Gestação. Rio de Janeiro, 12 mar. 2026. Disponível em: <https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-mulher/principais-questoes-sobre-toxoplasmose-e-rubeola-na-gestacao>.