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Principais Questões sobre Segurança do Paciente em Unidades Neonatais

9 abr 2019

Sistematizamos as Principais questões sobre Segurança do Paciente em Unidades Neonatais, abordadas durante Encontro com as Especialistas Roseli Calil (Unicamp) e Ritta Braz (IFF/Fiocruz), médicas neonatologistas, em 14/02/2019.

O tema segurança do paciente tem sido intensamente discutido por profissionais e gestores de serviços de saúde. No entanto, até bem pouco tempo os danos ocasionados por falhas durante o cuidado aos pacientes eram considerados quase inevitáveis ou um resultado de maus provedores de cuidados. Essa realidade começou a mudar no final da década de 1990, após a publicação do relatório intitulado “To err is human: Building a safer health care system” (Errar é humano: construindo um sistema de saúde seguro) pelo Institute of Medicine, dos EUA. A segurança do paciente ganhou relevância mundial e evidenciou a necessidade de repensar e aprimorar o processo de cuidado em saúde, visando à melhoria na qualidade da assistência prestada.

Em 2004, a Organização Mundial de Saúde (OMS), criou a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente e foi instituída a Classificação Internacional de Segurança do Paciente. No Brasil, somente em 2013 a segurança do paciente passou a ser foco de programas e políticas públicas de saúde com a aprovação do Programa Nacional de Segurança do Paciente do Ministério da Saúde (MS), assim como, da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 36 da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que instituíram diretrizes para promoção da segurança do paciente e a qualidade nos serviços de saúde. Na assistência neonatal, a ANVISA propõe estratégias destinadas à melhoria da qualidade e segurança, com o objetivo de reduzir os agravos e minimizar os danos do processo assistencial.

Sabemos que o ambiente da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) é um cenário assistencial complexo, com elevados riscos aos pacientes, pela diversidade e características dos procedimentos realizados pela equipe multiprofissional. Além de ser um ambiente altamente estressante, onde decisões devem ser tomadas rapidamente e podem significar a sobrevivência do paciente. Além desses fatores, ainda encontramos outros agravantes específicos, como longos períodos de internação.

Neste contexto, devemos priorizar as mesmas medidas já recomendadas para os pacientes em geral, ou seja: identificação segura, higienização das mãos e prevenção de infecções relacionadas a assistência à saúde, prevenção e notificação de erros e eventos adversos clínicos e não clínicos (quedas, extubações não programadas e flebites, etc.), implementação de programas de calibração e manutenção de equipamentos (especialmente bombas de infusão), prevenção de erros na cadeia medicamentosa e a comunicação efetiva, além da prevenção de outros riscos característicos do cuidado neonatal.

Abaixo a gravação do Encontro na íntegra.

O Encontro com o Especialista é uma webconferência realizada quinzenalmente com especialistas de diversas áreas. Para participar é necessário se inscrever no evento, assim você poderá enviar dúvidas que serão respondidas ao vivo!

Fique atento à agenda de Encontros com o Especialista. Inscreva-se já!

 

Perguntas & Respostas

 

1) O que é segurança do paciente?

Se você for utilizar a definição clássica, da OMS, é reduzir ao mínimo aceitável o risco de ocorrência de um evento com dano desnecessário; um evento associado ao cuidado de saúde. Ainda temos muito para discutir sobre segurança do paciente nas unidades neonatais, embora já tenhamos bastante material, e basicamente é esta a definição: reduzir ao mínimo aceitável a ocorrência de riscos desnecessários, secundários ao cuidado à saúde.

Tudo o que envolve a assistência está dentro desse contexto, então outro conceitos que temos é o gerenciamento de riscos, que é ficar atendo a tudo o que pode dar errado e tentar estabelecer as medidas de prevenção (infelizmente não dá para zerar tudo isso); porém, se acontecer, quais as medidas que devemos tomar para minimizar esses eventos? Esse é um assunto bastante importante que podemos posteriormente aprofundar dentro do contexto da farmacologia, da vigilância, do controle de infecção e etc.

 

2) Trabalho numa instituição onde, no ano de 2018, tivemos onze infecções por corrente sanguínea. Neste início de 2019, tivemos um RN com cateter umbilical retirado no quarto dia de vida com cultura de ponta positiva para S. aureus MR (resistente a vancomicina) e Klebsiela MR. Há tempos a equipe vem sendo orientada sobre a higienização das mãos, a assepsia das conexões, o uso de EPIs, a limpeza concorrente, entre outros; porém, não estamos vendo resultados. Como conscientizar essas equipes? Quais medidas a mais poderíamos incluir? Existe um bundle para neonatologia?

Sobre as onze infecções, sem ter um denominador, posso achar muito ou pouco; mas, de qualquer forma, mesmo sem o denominador, vou me lembrar das palavras sábias da Doutora Denise Cardo, coordenadora do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, EUA), que diz que é importante a gente saber a questão do denominador, mas é muito pertinente entender que, independentemente deste, onze crianças, onze famílias foram afetadas com esse evento, que pode ter levado ou não à morbi-mortalidade. Quanto ao bundle para prevenção de infecção associada a cateteres, existem bundles de inserção e, depois, se você quiser entrar em contato, podemos disponibilizar e podemos orientar sobre outras formas de sensibilizar a equipe. O ponto básico para adesão da equipe é ela entender o porquê das coisas; muitas vezes a gente determina que seja preciso fazer isso ou aquilo, mas não explica o porquê. Quando o indivíduo não tem o conhecimento do porquê e precisa fazer algo, ele costuma fazer quando está sendo “observado”. Então, acho que uma das estratégias não é somente aula; a aula é importante, ter o conhecimento é importante, mas a sensibilização por adesão precisa ter a compreensão de que aquilo que o indivíduo está fazendo não é para agradar a chefia, nem o diretor do hospital. Quando o indivíduo deixa de aderir a essas práticas, ele está prejudicando uma criança submetida aos nossos cuidados. Uma situação é errar, e o erro, por si só, não é intencional, mas quando você viola as boas práticas, isso é quebra de regras, é quebra de comportamento ético; a ética na medicina, na enfermagem, ou na fisioterapia é a mesma: não prejudicar o paciente é o ponto de partida. A motivação passa por isso, pelo o que é direito, o que é dever, e até aonde caminha a liberdade para não atrapalhar o outro indivíduo. Com relação aos multirresistentes, é importante termos uma microbiologia bastante presente, que nos dê respostas rápidas; o trabalho em equipe envolve ter uma boa interação com a microbiologia, e precisamos ter também produtos para serviços de saúde adequados para a neonatologia, sem improvisações para a limpeza da pele, para fixação de cateter, para produtos de higienização das mãos, etc. Outro ponto importante é a saúde ocupacional e, além da adesão da higienização das mãos, é saber o quanto os profissionais circulam de um serviço para outro; ter produto antisséptico, além do álcool em gel, para reduzir essa carga microbiana também é muito importante. O sabão para higienização das mãos em unidades de alto risco é muito importante, então, sempre que possível, especialmente nas situações de surto, ter o sabão com antisséptico (o mais usado é a clorexidina) e realizar as boas práticas de inserção e manuseio do cateter. Já houve um encontro sobre as boas práticas na inserção e manuseio do cateter; então vocês podem localizar no Portal o material disponível.

Algo que deve ser acrescentado é sobre uma experiência da unidade neonatal onde atuamos e esta questão foi muito abraçada pela enfermagem (que é uma equipe fundamental em todo o processo de ampliação da segurança do paciente dentro da unidade). Além de implantar esses bundles, esses pacotes de medidas de boas práticas para redução de infecção associada ao cateter, tanto na inserção, quanto no manuseio, depois de estabelecidos todos esses pacotes e com treinamento efetivo de toda a equipe multiprofissional envolvida (principalmente aquela que tem contato e mexe no cateter), utilizamos uma estratégia de formar um grupo de quase vigília do cateter e formulamos um checklist. Existia, sempre no início do processo, uma pessoa que não estava envolvida na inserção ou no manuseio do cateter, mas que ficava acompanhando o checklist, o passo a passo. Quando ela detectava alguma falha, interrompia o procedimento e solicitava que fosse revisto, refeito ou melhorado. Isso, no início, ajudou muito, e hoje essa prática já não existe mais porque realmente as pessoas incorporaram a prática da aplicação e execução das medidas de prevenção estabelecidas.

Muitas vezes, e por uns bons anos, a gente ficou muito focada no checklist de inserção do cateter e geralmente essa inserção às vezes é feita por um grupo mais restrito de pessoas, exceto nos hospitais de ensino. Mas o que é fundamental e melhorou bastante nossos resultados foi o foco nas boas práticas de manutenção desse cateter. Na unidade onde trabalho, por pelo menos dois ou três anos, o manuseio do cateter central é feito exclusivamente pelo enfermeiro, e a montagem da nutrição parenteral é feita de forma asséptica, em sala reservada onde todas as conexões são feitas por um enfermeiro que se paramenta completamente para fazer a montagem das bolsas; a colocação das bolsas no sistema de infusão de bomba também é feito por enfermeiro. Então, a responsabilização do enfermeiro e não a multiplicação de muitas pessoas com a mesma responsabilidade também foi algo que aderimos e entendemos que foi uma boa estratégia dentro do contexto da assistência neonatal. Nesse contexto, a equipe de enfermagem exerce um grande papel na manutenção do cateter e na prevenção de infecção de corrente sanguínea.

 

3) Existe diferença de eficácia entre a clorexidina degermante e o triclosan na higienização das mãos de profissionais e familiares dentro da UTI neonatal?

O triclosan também é um antisséptico; no entanto, nas formulações nacionais, ele é um componente do sabão líquido comum, ou seja, com o objetivo de não contaminar o produto, mas não tem uma concentração que promove eficácia em termos de efeito antisséptico. O sabão líquido comum é recomendado para as unidades de menor risco de infecção (ambulatórios, unidades de baixo risco, alojamento conjunto) e ele é eficaz para retirar a sujidade visível das mãos e por efeito mecânico remover as bactérias da camada superficial de pele. No entanto, o sabão líquido comum não tem efeito para ação nas camadas mais profundas da pele, que é onde justamente fica o Staphylococcus coagulase negativa, por exemplo, que é contaminante da pele. Para o adulto, essa bactéria não causa tanto problema, mas é um dos primeiros agentes de infecção de corrente sanguínea na neonatologia quando o restante das boas práticas já foi implantado. Então, ter a clorexidina em unidades neonatais e em centros cirúrgicos agrega o valor; a clorexidina remove tanto as bactérias da camada superficial (de uma forma mais rápida quando comparada ao sabão comum), quanto remove as bactérias da camada mais profunda e, para a neonatologia, isso é importante, como também tem um efeito residual acumulativo (quanto mais a gente higieniza as mãos, menor será a sua carga microbiana). Entender que se você entrar em um hospital de banho tomado e que, com isso, a sua microbiota está perfeita é um erro. A primeira higienização das mãos preferencialmente deve ser feito com antisséptico para reduzir a carga microbiana para que atuemos de forma segura dentro da unidade neonatal. Por fim, o álcool a 70%, na forma gel ou espuma, é um ótimo aliado na higienização das mãos; comparado ao sabão comum, você gasta de 20 a 30 segundos de álcool gel versus um minuto a um minuto e meio para o sabão comum. Como via de regra, sabe-se que as pessoas não gastam mais de 20 segundos para higienizar as suas mãos, então, resumindo: o problema não é falar que higieniza as mãos, mas sim como se higieniza as mãos. Então, a técnica precisa ser adequada e o produto também adequado, a depender de cada procedimento que está sendo realizado ou pleiteado. Vamos lembrar os cinco momentos da higienização das mãos, que às vezes é negligenciado, lembrar o contato com material biológico, o contato com o espaço pele-leito (porque a gente pode tanto se contaminar, como pode contaminar o ambiente) e o cuidado com as questões relacionadas ao momento do preparo de medicação (que não faz parte dos cinco momentos, mas é fundamental a higienização das mãos antes desse preparo). O uso de luvas não elimina a necessidade de higienização das mãos em todos os sentidos.

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4) Quais os principais riscos associados ao cuidado neonatal?

A questão da identificação do paciente que pode gerar outros eventos associados à falha na identificação, o risco de queda do bebê, o risco de flebite, de barotrauma, a extubação acidental (são práticas do processo assistencial que vamos olhando com cuidado, identificando os riscos e estabelecendo as barreiras para que essas questões sejam minimizadas, porque nem sempre conseguimos evitá-las ou trazê-las a zero). Também ressalto o cuidado com o gerenciamento dos equipamentos pois existe um risco muito grande nesta questão, então a engenharia clínica deve estar muito envolvida com a prática assistencial. Temos muitas falhas associadas a erros de bombas de infusão, a questão da calibração dos equipamentos, se realmente estamos entregando a FiO2 necessária para evitarmos a retinopatia da prematuridade e uma série de outros eventos. Juntamente com o pessoal da farmácia, não pensar apenas na questão de eventos relacionados à cadeia medicamentosa, mas pensar na segurança do paciente antes mesmo da medicação chegar às unidades, então é importante termos estabelecidos programas de capacitação e de qualificação dos nossos fornecedores de medicamentos; enfim, é toda a cadeia de cuidados para evitar os perigos associados ao cuidado. No transporte intra e interhospitalar dos pacientes, a questão da comunicação efetiva, o registro correto das informações, termos uma forma segura, razoável e entendível para todas as pessoas de como registrar as siglas e abreviaturas que não são adequadas e uma série de outras questões. Então, a gente tem que pensar que esses riscos associados ao cuidado vão desde os riscos relacionados ao próprio paciente e aos seus problemas básicos até à gestão do cuidado neonatal.

Imagino que todo cuidado pode ter um efeito adverso; as nossas grandes preocupações na UTI vão ser um pouco divergentes das do alojamento conjunto. No alojamento conjunto, nossas maiores preocupações são com a identificação do paciente, a nutrição da própria mãe (por mais que a gente fale em não ter aleitamento cruzado, às vezes isso pode acontecer na nossa frente) e a prevenção de quedas. Já dentro da UTI neonatal é a linha de cuidado inteiro, desde a prevenção de danos relacionados ao neurodesenvolvimento decorrentes das más práticas no cuidado, a necessidade da redução de ruídos, a redução de procedimentos dolorosos, a broncodisplasia, a retinopatia da prematuridade, as lesões de pele que podem abrir portas para o risco de infecção, até os erros decorrentes de medicamentos. Muitas vezes, este é um evento pouco diagnosticado, às vezes a criança piora por um evento adverso relacionado a medicamentos (uma reação ou um erro de medicação), e isso pode não ser percebido pela equipe. Um encontro que proponho fazer é unicamente para discutirmos sobre a segurança no uso de medicamentos e o monitoramento dessas reações adversas; quando pensar e o que fazer diante dessa situação.

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5) Como funciona um sistema de notificação de eventos?

O sistema de notificação de eventos tem que ser não punitivo, com base na cultura justa, ser cuidadoso e evitar a exposição de quem notifica (porque muitas vezes as pessoas ficam sensibilizadas pela notificação e passam a sofrer retaliações). O grande objetivo da notificação é avaliar o que aconteceu para ver se é algo prevenível para que não ocorra novamente, ou possa ser minimizado. Então, vai depender dos recursos que temos; podemos ter desde um sistema sofisticado e sistematizado ou uma ficha padronizada que pode ser encaminhada para o núcleo de segurança, e, a depender do tipo de evento, ele deve ser avaliado por especialistas e pessoas que entendam daquele assunto e que sejam membros do grupo. Por exemplo, se ocorreu algo relacionado a medicamento, alguém que seja clínico e alguém da farmácia poderão oferecer melhor avaliação disso. Se for um evento que tem a ver com uma lesão de pele, alguém que seja do grupo de curativos com certeza poderá contribuir para a avaliação desse evento. É dessa forma que fazemos, qualquer pessoa pode notificar, às vezes fazemos a notificação por busca ativa também, existem alguns serviços que já realizam a busca ativa dos eventos. Com base nessas notificações, fazemos a análise, damos um feedback à equipe e os pressupostos têm que ser num sistema responsivo para que o indivíduo não desista de notificar, porque se ele notifica algo e nada muda, no outro dia está acontecendo a mesma coisa, isso deixa de se tornar importante para aquela pessoa. Não só os eventos que causaram dano ao paciente, mas também aqueles incidentes sem danos e o quase erro precisam ser notificados. Imaginam um problema com a transfusão de sangue em que se colheu uma amostra de um paciente errado; mesmo que isso não chegue ao paciente porque foi percebido anteriormente, é passível de notificação para entendermos o que levou aquela coleta equivocada. Isso é importante porque naquele momento pode ter sido percebido, mas em outra situação pode passar despercebido e isso é algo bastante grave.

O sistema de notificação vem para ensinar à gente que se pode aprender com os erros. Essa questão da cultura punitiva precisa ser mudada porque as pessoas não agem determinadas a errar; as falhas e erros acontecem por processos mal desenhados, mal gerenciados e essas falhas vão se somando. Na nossa experiência, sempre de acordo com o tipo de notificação, uma questão que ajudou muito, trazendo os especialistas que estão envolvidos principalmente com aquele tipo de notificação e que trazem o conhecimento das melhores práticas, foi a discussão junto com as equipes assistências. Assim, elas aprendem a fazer a análise da causa daquele erro e existem técnicas para sabermos como tratar o erro, como ele será analisado, como identificar as causas e como estabelecer um plano de ação de melhorias a serem implementadas para corrigir essas falhas. Vamos monitorando isso, observando se aquilo volta a acontecer ou não; quando as falhas se repetem é porque precisamos voltar e reanalisar, rodar um novo ciclo PDCA, entender o que está acontecendo novamente, ver as falhas que estão ocorrendo, porque naquele momento as barreiras que estabelecemos não foram suficientes ainda para controlar a ocorrência daquela falha. Isso vai trazer, sempre, uma melhoria contínua, que é a base da qualidade e da segurança; é preciso termos uma continuidade de melhorias que vão se somando e tornando o nosso cuidado assistencial, nosso cuidado neonatal cada vez mais seguro para aquele paciente.

Na Caism Unicamp, a neonatologia tem uma tradição de notificação de erros desde 2003, exatamente quando começou a nossa gerência de risco. Foi com base nessas modificações que fizemos muitas melhorias naquilo que se refere aos erros de medicamentos; os erros de dose eram os principais que ocorriam. Quando padronizamos todos os diluentes de medicamentos, informatizou essa diluição e, a partir da prescrição por dose, o profissional de enfermagem já tem em mililitros o quanto ele tem a administrar; isso reduziu muito os nossos erros de dosagem. Mas nos chamou atenção outro evento que precisa ser analisado: os erros de prescrição da parte médica começaram a se tornar mais importantes, porque ainda não está totalmente incorporada pela equipe médica a questão da dupla checagem. Quando prescrevemos um medicamento e pedimos para um colega checar para a gente, isso não diminui a nossa capacidade porque todos nós podemos errar uma conta, independente da hierarquia que existe.

 

6) O que pode favorecer a mudança cultural das equipes para que passem a considerar a segurança dos pacientes como dimensão primordial do cuidado?

A mudança de cultura podemos estabelecer na medida em que entendemos o que é trabalhar em equipe. Trabalhar em equipe é diferente de trabalhar juntos. Depois disponibilizaremos a apresentação onde isso está bem organizado. Quando trabalhamos com foco no cliente, estaremos conseguindo protegê-lo; quando, simplesmente, trabalhamos juntos, estamos administrando o nosso próprio ego, as nossas próprias necessidades. Um exemplo prático disso, trabalhando em equipe, o enfermeiro pode sinalizar para o médico que este não higienizou as mãos; o médico agradece e higieniza as mãos. Trabalhando simplesmente junto, o médico faz de conta que não ouviu, continua fazendo o procedimento e pode acontecer dele até hostilizar essa pessoa que o abordou. Trabalhando em equipe, um enfermeiro, observando que o copo do umidificador precisa ser preenchido, embora sabendo que isso na unidade dele seja uma atribuição da fisioterapia, mas que esta se encontra ocupada, ele preenche esse copo. Isso é trabalhar em equipe, é para o bem do paciente. Trabalhando junto, ele, no máximo, avisa o fisioterapeuta, ou manda avisar o fisioterapeuta porque, afinal de contas, isso é trabalho dele. Trabalhando em equipe, o médico residente pode apontar uma falha do preceptor na condução de um caso. É claro que há o princípio da ética, no entanto, se o residente não se sente seguro para fazer esse apontamento, com receio de que esse preceptor pode persegui-lo e prejudica-lo numa avaliação, ele simplesmente segue o que o preceptor falou e o paciente pode ser prejudicado; esse é o comportamento de quem somente trabalha junto. Então, se vocês pararem para refletir, muitas vezes o indivíduo trabalha de uma forma equivocada, ele não trabalha em equipe. O conceito principal de trabalhar em equipe é não ter hierarquia para as operações; todo mundo pode aprender e todos podem ensinar. O residente quando vê uma falha do preceptor, às vezes é uma falha porque ele tem a informação parcial daquele caso. Por exemplo, uma insuficiência renal e o indivíduo vai dar uma dose de uma droga sem correção. Se o residente, de forma ética, alertar o professor de que o paciente tem insuficiência renal e que seja melhor ou mudar de droga ou fazer a correção da droga, isso é proteger o paciente, isso é trabalhar em equipe. Agora, se ele tem medo ou receio de decepcionar o preceptor por este ser muito vaidoso, ele não vai apontar e quem é prejudicado é o paciente. Essas são algumas estratégias que parecem simples, mas são fundamentais para o entendimento do que é conseguir desenvolver a cultura de segurança dentro dos hospitais. Além disso, é fundamental a organização da parte de documentação, a parte da segurança social, a sinalização; tudo isso faz parte da cultura de segurança que precisa, muitas vezes, não só da boa vontade dos profissionais, mas de aspectos estruturais que dependem também da gestão, do olhar cuidadoso dos gestores e de todos os integrantes do hospital.

 

7) Como implementar a segurança do paciente na unidade?

Começar por onde é possível, como já dissemos. Para quem não começou por lugar algum, comece então com os protocolos básicos, revisitem cada item: como está a questão da identificação dentro da unidade, se isso está sendo feito de forma segura, como está a questão da comunicação, desde a comunicação verbal, registros de informações, registros de prontuários, como está a prevenção das lesões de pele, fazer um diagnóstico dos principais problemas, mapear quais são as nossas fortalezas e nossas fragilidades para realizarmos um diagnóstico para saber por onde começar. Começar com tudo junto, às vezes não dá. Uma das formas é implementar também as notificações, porque são ferramentas para saber onde há mais fragilidade e planejar melhorias. Também é importante lembrar que, no núcleo de segurança, a equipe de neonatologia precisa estar participando, e podemos ter comitês internos de segurança (cada setor do hospital ter um comitê para ser uma ponte para o núcleo maior). Esse é um trabalho para muitas mãos e é importante o envolvimento de todos.

Temos dois relatos que foram muito interessantes; um foi de como uma equipe conseguiu melhorar o seu protocolo de prevenção de hipotermia com a questão do controle da sala. Eles tinham um controle central de temperatura e era uma confusão porque o pessoal da manutenção não fazia a correção da temperatura; então eles trouxeram a equipe da manutenção para dentro do centro cirúrgico para acompanhar o nascimento e ver o quanto era importante para aquele bebê a questão do controle térmico e no que aquilo impactava. Assim, eles se envolveram completamente, queriam saber os resultados e se a taxa de normotermia da unidade havia melhorado. O segundo relato foi de uma pessoa da higienização que fazia a higienização das salas cirúrgicas e que sofria uma pressão muito grande porque as equipes queriam a sala liberada. Ela se impôs, dizendo que respeitava o médico pela sua capacidade, mas sabia que o seu papel é tão importante quanto para a prevenção de infecção, do bom resultado do procedimento e da segurança do paciente no nosso hospital. São duas pessoas que estão fora daquela equipe assistencial, mas que estão totalmente envolvidas nessa questão. Sobre a cultura de segurança, é fundamental sensibilizar as equipes para que possam entender o porquê de suas atuações; no controle da questão do oxigênio alvo é fundamental que as equipes de enfermagem entendam o porquê é importante controlar a saturação de oxigênio desses bebês e quais são as consequências danosas para a criança. Assim, isso deixa de ser uma prática mecânica, por obrigação, e a pessoa se envolve no cuidado; essa é uma questão que está totalmente influenciada na formação dessa cultura de segurança. A cultura de segurança do paciente não acontece de um momento para outro, por isso para implementar a segurança é interessante definir o que se pode fazer a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo; dessa forma você não esgota as suas forças, às vezes, no que seja mais pesado se existem coisas que estão mais tangíveis, mais gerenciáveis, mais próximas do seu controle e que vão impactar na segurança do paciente. Com isso, vamos evoluindo nesse caminhar em busca da cultura de segurança do paciente que, realmente, é uma mudança de postura das equipes e assim conseguimos tornar realmente o cuidado mais seguro dentro da unidade.

 

8) Como o núcleo de segurança do paciente deve ser construído?

Isso está na nossa apresentação. Na conformação não existe uma obrigatoriedade de número mínimo de membros, mas entendemos que, quanto mais participativo, melhor. Para todas as equipes que interagem com a neonatologia (imaginando que somos clientes), desde a hotelaria até a nutrição e a farmácia, precisamos ter membros que tenham conhecimento e que possam responder sobre isso. Então, dentro da nossa conformação como disse, temos a equipe da gerencia de risco com representantes da fármaco, da tecno e da hemovigilância , representantes da diretoria, da ouvidoria, do núcleo da qualidade, da hotelaria (que lida com a questão ambiental, de circulação de pessoas). Enfim, a conformação pode ser variada, mas é importante que ela tenha participação das equipes médicas, das de enfermagem, etc., e que essas não atuem somente como pessoas físicas, mas como representantes dos setores dentro do hospital.

Temos visto que não existe esse formato. Quem é que participa? Cada instituição tem arranjos próprios, tem as pessoas que estão mais sensibilizadas e envolvidas, e, com o passar do tempo, observamos que isso vai mudando, e as pessoas vão se agregando. Realmente, cada instituição vai entender quais são os núcleos disponíveis e envolvidos; vimos, com muita frequência, participantes da CCIH, do pessoal farmácia, do controle de qualidade dos insumos, etc.. Assim os arranjos vão sendo feitos e vão se estabelecendo essas boas práticas e, principalmente, o envolvimento e o apoio da alta direção. Se a alta direção das instituições não entende como primordial para elas a segurança do paciente, esse caminho de implantação desses protocolos e estratégias será um pouco mais dificultoso. O apoio da instituição e a definição de uma política de segurança do paciente (e isso ser entendido por todos como uma diretriz da instituição) são fundamentais.

 

9) Vi que se falou da importância da lavagem das mãos. Uma dúvida, caso não tenha luva de procedimento em determinado momento e eu fizer corretamente a lavagem das mãos, há riscos de passar a bactéria de um RN para outro com a lavagem correta das mãos?

A luva de procedimento está indicada, fundamentalmente, para prevenir a contaminação do profissional da saúde; especialmente para isso. Então, se você vai fazer um procedimento invasivo, que tenha um risco de contato ou de contaminação de material biológico (sangue, secreção e fezes), o ideal, para a sua proteção, é ter a luva de procedimento. A outra situação em que se usa luva de procedimento são as precauções por contato para evitar que você, enquanto profissional, se contamine, se prejudique, ou seja fonte de contaminação cruzada para as outras pessoas. O fato é que luva é um recurso tecnológico, mas não substitui a higienização das mãos. Não é para todo toque no RN que indicamos o uso de luvas, não é para qualquer cuidado do RN que necessariamente precisamos calçar luvas (a não ser que ele esteja em precaução de contato ou que seja um procedimento com risco de contaminação com material biológico). Para a sua proteção é que realmente não pode faltar a luva de procedimento, mas, para o exame físico de um bebê ou um posicionamento de um bebê, você higienizar corretamente as mãos é o certo.

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